domingo, 10 de maio de 2015

Leonor Xavier BENVINDA MARIA A MEMÓRIA VIVA DO RIO


      Benvinda Maria ou Memória Viva no Rio

 

Para nós, os que alguma vez fomos portugueses no Brasil, Portugal é a patriamada. A distância é sofrimento, a possível viagem de férias é uma alegria, o regresso é um sonho. E as notícias são o fermento que dá sentido a tudo o mais, na realidade imensa do Novo Mundo.

 Penso na Benvinda Maria, que neste contexto e além de todas as adversidades, por mérito alcançou estatuto de liderança na comunidade portuguesa do Rio de Janeiro. Conheci-a nos primeiros meses de 1981, quando comecei a trabalhar na redação de O Mundo Português, chefiada pelo meu querido Rocha Mendes, um dos históricos jornalistas portugueses, a quem devo a tarimba do ofício, o aprendizado de tudo ou quase tudo o que sei da profissão. O Rochinha, assim chamado, tinha tido estreia no jornal Correio Português em 1941, numa época em que a imprensa portuguesa, com vários títulos, ainda era referência de informação no Brasil.

Quarenta anos mais tarde, e ao longo dos anos 80, O Mundo Português,  a Voz de Portugal e o Portugal em Foco eram os três semanários que entre si disputavam lugar de destaque nas bancas da cidade. Quando assim me iniciei no jornalismo, O Mundo Português, do qual Benvinda Maria tinha sido dona e diretora, pertencia ao grupo Espírito Santo e a António Champalimaud, tinha Luis Oliveira Dias como diretor. Na Voz de Portugal, o jornalista maior era o veterano José Maria Rodrigues. No Portugal em Foco, o jornal mais recente, a fundadora, proprietária e diretora era a Benvinda Maria.

Imponente no porte, conheci-a cheia de vivacidade na fala, exuberante nos modos, ocupando espaço. Sempre em primeiro plano nos acontecimentos, nas datas patrióticas, nas homenagens e celebrações, nos casamentos e batizados, nos festejos dos clubes e casas regionais, a Benvinda Maria não deixava nunca de se manifestar, sempre exprimindo as posições mais conservadoras nos temas da atualidade, de acordo com o pensamento da ala mais tradicional da comunidade portuguesa no Rio de Janeiro. Lembro-me de como era forte e impressiva a sensação de assistir às apresentações do Grupo de Folclore que ela criou, muitas vezes trouxe em digressão a Portugal, e algumas vezes eu acompanhei no Rio. A riqueza dos trajes, a variedade nos adereços, e além de tudo, a originalidade do folclore cantado e dançado por gente nova, pronúncia luso-brasileira, tons de pele diversos, a demonstrar a mistura de sangue, branco, negro e índio que faz a graça e a fertilidade do Brasil.

Admiro a capacidade de Benvinda Maria para exercer a sua influência na captação de apoios, de subsídios, de poderes para concretizar os seus projetos, sempre por amor à presença de Portugal no Brasil. Num ambiente machista, adverso a novidades, em que as mulheres não eram aceites sem um longo e duro período de análise e provação, é notável o percurso de Benvinda Maria. In memoriam a evoco, e a guardo na minha galeria de personagens, onde se alinham aqueles homens e mulheres que em algum momento foram importantes na minha vida. Como se fosse hoje, relembro a voz e o riso com que, algum tempo depois de nos conhecermos, a Benvinda me puxou de lado e quase em segredo me disse “você é a jornalista, eu a jornaleira.” Curta e forte frase de estímulo, que foi abrindo caminho no fio destas minhas andanças de escrever em jornal, até hoje.

                                            Leonor Xavier

                                            25 de Outubro de 2012         

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